quarta-feira, 31 de outubro de 2012

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"Não mexa com quem está quieto." por Natalia de Oliveira

Olá leitores!!!
Como hojé é dia das bruxas, aqui vai mais um dos meus contos de Terror.


"Não mexa com quem está quieto"

     A hora da saída da escola era um caos de sons e cores. Os vários alunos da escola São Jorge no ABC paulista ainda estavam no portão, jogando conversa fora, era praticamente um ponto de encontro dos alunos de salas diferentes. Meninos, meninas, usando a camisa polo azul com o logo da escola, que compunha o uniforme da escola, conversavam é sombra das arvores da calçada, alguns esperando o ônibus, alguns esperando os pais, alguns só matando o tempo com os amigos.

     Larissa descia a escada que levava á calçada, um pouco atrasada por ter que resolver o problema com a passagem de ônibus na secretaria da escola. Já alcançava a calçada quando avistou Janaína e Pedro, seus amigos. Apressou o passo em direção á garota de cabelos loiros compridos que lembrava uma Barbie, e do rapaz magro e alto de cabelos castanhos claros.
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Dia das Bruxas

A origem do halloween remonta às tradições dos povos que habitaram a Galia e as ilhas da Grã-Bretanha entre os anos 600 a.C. e 800 d.C., embora com marcadas diferenças em relação às atuais abóboras ou da famosa frase "Gostosuras ou travessuras", exportada pelos Estados Unidos, que popularizaram a comemoração. Originalmente, o halloween não tinha relação com bruxas. Era um festival do calendário celta da Irlanda, o festival de Samhain, celebrado entre 30 de outubro e 2 de novembro e marcava o fim do verão (samhain significa literalmente "fim do verão").
A celebração do Halloween tem duas origens que no transcurso da História foram se misturando.

sábado, 27 de outubro de 2012

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E mais uma vez, sou obrigada á exercer a "Democracia"

   
Olá Leitores!
Eu sei, eu sei, de novo nesse assunto que não tem nada á ver com literatura, mas eu tenho que compartilhar isso com vocês.
Na minha cidade vai ter Segundo Turno das eleições. Pois é, e mais uma vez, serei obrigada á exercer a "Democracia".
     Na minha cidade vai ter Segundo Turno das eleições. Pois é, e mais uma vez, serei obrigada á exercer a "Democracia". É incrivel. Eu não pedi para ser mesária, e tenho certeza que pelo menos 99% dos mesarios concordam comigo quando eu digo é o cumulo perder um dia inteiro (de novo, não qualquer dia, um domingo, dia para descansar) para trabalhar de graça para o governo, levar xingo de eleitor que quer fazer barraco por causa de fila e ainda correr o risco de ser presa se me recusar a partir dessa patifaria que é a eleição.
     É verdade, e aposto que você que está lendo isso concorda comigo. O segundo turno consegue ser pior do que o primeiro, por que não é uma orda de malacabados para escolher entre o menos pior, mas agora temos que escolher entre a nata da nata do pior, entre o ruim e o odioso, entre a agonia e o desespero.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

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"Sebastian" capitulo VII , por Natalia de Oliveira

Parte I
Capitulo VII
"Leiloado"
       O fato que será narrado aqui neste capitulo aconteceu alguns dias depois do encontro com Eva, em um dia nada especial, simples como qualquer outro, mas que acabou marcando Sebastian para sempre em sua alma. É o tipo de coisa que ele tentaria apagar de sua mente sem sucesso. Seria fácil continuar essa história sem narrar esse acontecimento apenas dizendo que aconteceu, não como aconteceu, mas não seria justo. Nada é justo. E será contado como ficou impresso na mente dele.

        Estavam os três amigos numa tarde de sábado em uma padaria em que costumavam ficar às vezes. O dono era bondoso e às vezes lhes dava pães e rosquinhas doces e quentinhas. Era um bom lugar pra ficar de bobeira, diferente daquele beco feio e escuro que Francesco e os outros ficavam á espera das ordens de Don Giovanni escondidos do mundo como ratos. Aquele havia sido um bom dia, trabalharam bastante no porto e haviam recebido o bastante para pagar á Francesco e não levarem uma surra e ainda puderam se dar ao luxo de comprar um bolo de chocolate que namoravam á semanas. Estavam sentados numa das mesas do lado de fora dessa padaria, com o sol poente sobre eles, deliciando-se com o bolo tão esperado. Sebastian lembrar-se-ia sempre do gosto daquele bolo, de como era doce, más nem tanto, leve e saboroso. Lembraria porque provava com uma alegria quase infantil aquele simples bolo, quando viu parar bem na frente da mesa em que estavam o carro preto de Don Giovanni.

        Naquele momento o gosto do bolo de chocolate desapareceu e o que engoliu mais parecia um bocado de papel, sem gosto e desforme. Luigi e Pietro perceberam o carro de pronto e se entreolharam intrigados, “Como ele sabia onde acha-los?”. De repente de dentro do carro saiu Vicenzo. Usava uma roupa boa, assustadoramente melhor do que as que ele costumava usar, e digamos que ele se vestia muito bem. Don Giovanni fazia questão que seus “empregados” mais próximos se vestissem de acordo com sua posição, afinal, era um homem de negócios e tinha que ser apresentável. Mas como foi dito, Vicenzo estava especialmente bem vestido naquele fim de tarde.

       - Os três, para dentro do carro. - disse com visível impaciência. – Agora.

       - Onde é a festa? – Sebastian provocou.

       - Olha, garoto, eu não tenho o dia todo, entre logo nesse maldito carro antes que eu os coloque, e vocês não vão querer isso. – disse irritado.

        Por experiência própria, sabiam que se Vicenzo vinha chama-los algo ia acontecer, e nem sempre terminava bem para eles. Mas fazer oque? Eram apenas escravinhos, obedecer cegamente era parte do pacote. Deixando o tão desejado bolo de chocolate para trás, seguiram em fila indiana até o carro. Os gêmeos entraram primeiro, e antes de Sebastian entrar, Vicenzo o segurou pelo braço e o puxou para o lado.

       - Você se acha muito engraçado, não é? Quero ver se vai continuar assim depois de hoje. – disse com um sorriso irônico.

       - Como assim? Oque vai acontecer hoje? – perguntou intrigado.

       - Vai ver. Agora entra no carro. – o empurrou em direção á porta.

        Sebastian olhou para Vicenzo por um instante antes de entrar no carro. De repente sentiu um desconforto tremendo, um reboliço no estomago, algo estava errado, muito errado.

        Não demoraram muito para chegar e quando perceberam, haviam sido levados á casa de Don Giovanni, descobrindo então a razão das roupas de Vicenzo. Havia uma festa rolando. A rua e a entrada de carros da casa estavam tomadas por carros de varias marcas diferentes, cada um mais moderno e caro que o outro. Pessoas bem vestidas, casais, velhos, jovens, varias pessoas desfilavam na entrada em trajes de gala.

        O motorista deu a volta para entrar pela entrada de serviço, para não atrapalhar a entrada dos convidados, e uma vez nos fundos da casa o carro parou e todos saíram.

       - Sigam-me. – disse Vicenzo caminhando pela entrada de serviço, seguido dos garotos.

        Calados eles o seguiram intrigados, passando pela cozinha que estava a todo vapor, com os mais deliciosos aromas. Seguiram pelo corredor até um quarto que tinha a porta trancada. Vicenzo deu umas batidinhas e a porta foi aberta pelo lado de dentro por uma garota. Ela devia ter mais ou menos vinte anos, era loira com os cabelos um tanto oleosos e precisando de um pente. Usava uma bata colorida e uma saia de algodão que vinha até os pés, tão colorida quanto a bata, bem no estilo hiponga.

       - Mais três. – Vicenzo disse á garota que olhou para eles meio dispersa. – Cuide deles.

       Ela deu espaço e Vicenzo meio que empurrou os garotos para dentro antes de sair dali apressado em direção á festa deixando os três com a hiponga.

       - Muito bem meus amores! – disse parando para olhar bem para eles. - Mas que roupas são essas?- disse ela com a voz mole, parecia chapada. – Tirem isso, tenho algo melhor para vocês, meus anjinhos.

        Ela foi até um canto cheio de sacolas, de uma loja famosa de Nápoles e voltou trazendo roupas bonitas. Para os três.

       - Aqui, acho que vão servir. – deu um conjunto para cada um.

        Os garotos se entreolharam. A sala tinha apenas dois sofás, uma mesinha de centro e um tipo de cômoda, nenhuma salinha ou biombo, nenhum lugar onde pudessem se trocar.

       - Não se incomodem comigo. – ela sorriu gesticulando com a mão, estava realmente chapada.

        Os gêmeos olharam-se e não tendo para onde correr mesmo, começaram a se despir. Sebastian continuava parado com o conjunto na mão, pensando para que servia tudo isso? Algo não estava certo, não estava. Percebendo a relutância de Sebastian a garota aproximou-se dele.

       - Oque foi? Está com vergonha, meu anjinho?

        Com delicadeza, a hiponga tocou seu pescoço e desceu a mão através de seu torço. Sebastian tentou afasta-la, mas ela foi rápida e assim que encontrou a barra da camisa surrada de Sebastian, a tirou e a jogou de lado. Instintivamente ele se cobriu com os braços, isso era embaraçoso.

       - Aposto que nenhuma garota havia tirado sua camisa antes, não é? – disse ela com um sorriso compreensivo. Ela fez um movimento em direção á calça dele, mas ele recuou.

       - Eu posso fazer isso. – respondeu sério. – Obrigado.

       - Tudo bem. – ela se afastou em direção á cômoda.

       Como isso era embaraçoso! Olhou para o lado, Luigi e Pietro já estavam vestidos, cada um com um conjunto de calça de brim preta e camisa social branquíssima que ficou realmente muito bem neles. Terminou de se vestir e os três sentaram-se no sofá, esperando. A hiponga voltou minutos depois com uma bandeja com três copos médios cheios de um liquido dourado.

       - Aqui, bebam. – ela ofereceu aos garotos que se entreolharam

       Luigi e Sebastian pareciam nem um pouco á vontade com essa situação, ainda mais quando uma bebida era oferecida assim. Mas que droga, eram crianças numa festa pra lá de suspeita e isso estava ficando esquisito demais. Para de certa forma acalma-los, Pietro foi o primeiro a aceitar a bebida. Pegou-a e a tomou de um só gole, fazendo uma careta antes de colocar o copo na mesinha de centro.

       - É whisky, não tem problema. – disse ele limpando o canto da boca com a manga da camisa nova.

       - Mas eu não vou tomar isso! – Luigi disse apavorado.

       - Luigi. . .  - Pietro olhou desesperado para Sebastian, pois sabia o que estava prestes a acontecer.

       Os gêmeos já haviam passado por isso antes e claro que o mais afetado foi Luigi. Não que encher a cara fosse a resposta, mas de certa forma entorpecia, e achava que era essa a ideia da hiponga, tornar mais fácil o que estava por vir. É claro que Sebastian percebeu oque Pietro queria.

       - Vamos. - Sebastian pegou um copo para si e o outro copo ofereceu diretamente á Luigi. – Estamos numa festa, por que não curtir um pouco? – Os olhos de Luigi estavam marejados. – Estamos juntos nessa.

       Dizendo isso, Sebastian virou o seu copo e também o tomou de um só gole. O gosto do whisky era horrível e lhe desceu queimando, mas Sebastian obteve o que queria. Luigi pegou seu copo e depois de olhar para Sebastian por um tempo doloroso, virou-o e ao fazê-lo, Sebastian notou o olhar agradecido de Pietro.

       Alguns minutos se passaram e de repente Vicenzo voltou, abrindo a porta e deixando-a escancarada. Ele dirigiu-se á Luigi e o pegou pelo braço puxando-o com força quase o fazendo cair. Ele esperneou e tentou se soltar.

       - Fica quieto ou eu quebro o seu braço! – Vicenzo bradou.

       Luigi olhou mais uma vez para Sebastian, parou de se debater e se deixou conduzir para fora do quarto, o que apertou o coração de Sebastian de tal maneira que ele não segurou as lagrimas. Pietro então o abraçou, e ficaram assim por um tempo, até que Vicenzo veio e se aproximou de Pietro.

       - Vamos ficar bem. – Pietro disse sussurrando no ouvido de Sebastian com um olhar estranho antes de Vicenzo o puxar do sofá e leva-lo para fora do quarto, deixando Sebastian sozinho.

       Ali sozinho naquele quarto, Sebastian sentia seu estomago revirar. Talvez fosse pela bebida que tomara, talvez fosse pelo terrível medo que sentia do que estava por vir, se soubesse o que estava por vir. Não sabia, e essa era a pior parte. Mas sabia de uma coisa, seja lá o que fosse já havia começado, desde o momento em que Vicenzo os pegara na padaria, e não tinha como parar.

       Colocou suas mãos entre os joelhos, para que a hiponga não visse que ele estava tremendo, olhava fixamente para a porta, esperando o momento em que Vicenzo entraria e o levaria sei lá para onde, sentindo um gosto metálico na boca. Era uma sensação horrível.

       Alguns minutos depois ouviu vozes no corredor se aproximando e seu coração bateu forte no peito. A porta se abriu e Vicenzo entrou com aquela expressão chapada de sempre, fumando seu cigarro nojento. Antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa Sebastian levantou-se, e sem olhar no rosto de Vicenzo se aproximou dele, impetuoso com só ele sabia ser.

       - Vamos logo com isso, eu não tenho a noite toda. – Sebastian disse surpreendendo Vicenzo.

       - Pelo contrario, - ele sorriu. – a noite está só começando.

       Sebastian respirou fundo. Vicenzo deu passagem e Sebastian andou pelo corredor sem que Vicenzo o empurrasse. Para o garoto cada passo era terrível, mas sabia que tinha que continuar indo. Quando saíram do corredor entraram na grande sala, que havia se tornado um belo salão de festa, cheio de gente. Sebastian de repente sentiu-se muito mal, pois todos os presentes pararam para olhar para ele.

       Vicenzo o conduzia através da multidão vestida em trajes de gala. Sebastian não sabia, mas era carnaval e os convidados usavam mascaras venezianas de todos os tipos, tamanhos e cores. Algumas bonitas, extravagantes, mas tinham algumas (e essas lhe causavam uma impressão muito ruim) que eram sinistras de uma forma convidativa como palhaços, duendes e fadas. Mas havia uma em especial que causou a pior sensação, o Leão. Era uma mascara grande com muitos detalhes que a deixavam bem realista, principalmente os dentes. Ele estava em um canto na festa, afastado do resto, mas não tirava os olhos de Sebastian.

       Vicenzo o conduzia pelo salão até uma espécie de palanque, no qual Don Giovanni estava também vestido em roupa de gala, surpreendentemente com uma mascara simples. Ele queria ser diferenciado dos outros pois sua mascara cobria apenas a região dos olhos, diferente das que cobriam o rosto todo, como o leão. Havia dois degraus para subir no palanque e Sebastian os subiu tropeçando, ouvindo o riso dos convidados e nesse momento quase vomitou. Don Giovanni estendeu a mão á Sebastian num gesto convidativo. Ele queria fugir dali, mas sabia que não haveria como. Então estendeu a mão para Don Giovanni que a tomou e fez com que ele ficasse de frente para a sinistra multidão.

       - Este aqui, Senhores, é o meu americano. Vejam os olhos dele.

       Varias pessoas se aproximaram e sussurravam surpresas com a cor profunda dos olhos dele. Sebastian de repente sentiu-se como um artigo sendo exposto. Então, para o horror de Sebastian, Don Giovanni o virou para ele e começou a desabotoar sua camisa.

       - Não! – ele protestou.

       - É melhor você cooperar aqui, garoto. – Don Giovanni retorquiu, causando verdadeiro pânico no garoto.

       Sem reação, Sebastian deixou-se ser despido na frente daquele monte de gente que o olhavam como abutres. Don Giovanni outra vez fez com que ele ficasse de frente para a multidão, dessa vez ele tremia da cabeça aos pés. Isso não podia estar acontecendo.

       - Vejam como a pele dele é macia. – Don Giovanni acariciou o pescoço de Sebastian. – Como é jovem e firme. – ele sorriu de forma sinistra, disse como se o estivesse vendendo.

       Vários convidados nesse momento pareceram se interessar mais ainda e se aproximaram mais do palanque.

       - Levando em conta que ele é o mais novo dos meus meninos e que também é a primeira festa dele, acho que posso arriscar dizer que ele é virgem. Você é? – disse voltando sua atenção para o garoto.

       - Oque?! – disse ele confuso.

       - É claro que é! Então o que acham de começarmos os lances com duzentos? – disse Don Giovanni e Sebastian quase desfaleceu. Estava sendo vendido de novo.

       - Trezentos! – disse uma senhora com sotaque francês usando uma mascara branca cheia de penas, lembrava muito uma garça.

       - Quatrocentos! – um arlequim gritou e as lagrimas vieram aos olhos de Sebastian.

       - Vamos, acho que ele merece mais do que isso! – Don Giovanni incitava

       - Quinhentos! – a francesa de branco disse animada.

       - Oitocentos! – o Leão disse lá do fundo do salão fazendo todos os convidados olharem para trás.

       Sebastian ouviu o Leão dar seu lance desejando que não fosse verdade. De todos naquela sala, o Leão não. A senhora francesa pareceu contrariada com o lance alto do Leão.

       - Novecentos! – retorquiu ela um tanto ansiosa.

       - Mil e duzentos! – o Leão rebateu. – Quer mesmo continuar, senhora? Eu posso cobrir qualquer lance que faça.

       - Mil e quinhentos! – disse ela desafiadora.

       Sebastian queria que um buraco no chão se abrisse no qual ele pudesse se jogar e desaparecer para sempre, pois o Leão deu uma risadinha, e disse em alto e bom som:

       - Mil e setecentos!

       A senhora ficou em silencio por um tempo, depois fez um sinal de negativo para Don Giovanni, dizendo que não daria mais lances.

       - Alguém está disposto á cobrir o lance de mil e setecentos? Não? Então. . . – Don Giovanni sorriu, jogou a camisa de Sebastian de volta para ele e fez sinal para que Vicenzo o levasse até o seu dono.

       Enquanto era conduzido através do salão, Sebastian não podia acreditar no que estava acontecendo. Havia acabado de ser leiloado. Sentia que suas pernas não o manteriam por muito mais tempo e se não fosse o fato de Vicenzo o estar empurrando pelo caminho, não teria conseguido chegar ao Leão por conta própria. Ele estava sentado numa mesa sozinho, Vicenzo puxou uma cadeira e fez Sebastian sentar-se como se ele fosse um saco de batatas, antes de voltar para onde seu chefe estava, agora na multidão entretendo os convidados. Aparentemente fora o ultimo leiloado da noite, pois os criados já estavam desmontando o palanque improvisado. Seu estomago dava voltas e até agora não tivera coragem de pousar os olhos diretamente na mascara de leão. Simplesmente colocou de novo a camisa, pois não queria que ele ficasse olhando para o seu corpo desnudo.

       - Don Giovanni sempre guarda o melhor para o final. – disse o Leão com um tom de voz estranho. – Qual é o seu nome? - Sebastian ficou em silencio. – Eu sei que tudo isso deve ser estranho para você, mas já que paguei uma boa quantia pela sua companhia, acho que você deveria mostrar o mínimo de educação.

       - Sebastian. – disse baixo, ainda sem olhar para seu dono.

       - O meu é. . .

       - Eu não quero saber. – disse ele seco. – Não preciso saber, preciso?

       O Leão ficou em silencio, aparentemente surpreso com a demonstração de arrogância daquele belo garoto, mas então soltou uma gargalhada.

       - Isso vai ser mais interessante do que eu estava supondo.

       Ele fez sinal para um dos garçons da festa se aproximasse e quanto este o fez, ele pediu dois whiskies. Assim que o garçom se foi, o Leão tirou a mascara revelando sua verdadeira face. Era um rapaz, não era velho, devia ter uns vinte e oito anos, loiro, os olhos eram de um azul profundo, tinha lábios grossos, lembrava essas pinturas renascentistas que Sebastian já estava se acostumando á ver nas paredes dessa casa. Muito bonito, e por um momento ocorreu a Sebastian que talvez essa sim fosse a verdadeira mascara.

       - Você entende o que está acontecendo aqui? - disse ele de repente assim que o garçom voltou com as bebidas. – Quero dizer, você parece meio novo nisso.

       Sebastian olhou para ele serio, lembrou-se da primeira lição de Don Giovanni, demonstrar ser forte. Pegou a sua bebida e virou-a como antes, bebendo-a de um só gole e batendo com o copo na mesa.

       - Faço uma ideia. – disse serio, deixando o Leão com uma expressão surpresa.

       - Bem, eu não o comprei, se é o que pensa. Eu te aluguei por esta noite, se é que me entende. – disse ele com um tom estranho.

       - Entendo, - disse pegando a bebida do Leão de sua mão e bebendo-a também. – Você é um pervertido que gosta de crianças. – Nem é preciso dizer que Sebastian já estava ficando chapado, mas incrivelmente essa observação não irritou o Leão, que sorriu.

       - Mais menos isso. Devo confessar uma coisa, as festas de Don Giovanni são famosas pelo leilão de garotos e garotas, mas nunca, até hoje, houve um artigo como posso dizer, tão interessante.

       - Isso deveria ser reconfortante? – disse ele com voz mole.

       O Leão sorriu exibindo seus dentes brancos, incrivelmente parecidos com presas mesmo e isso fez o estomago de Sebastian dar voltas. Eles estavam sentados de frente um para o outro numa mesa para quatro, ou seja, havia uma lacuna de uma cadeira entre os dois, como o Leão queria ficar mais perto ele levantou-se de sua cadeira e sentou-se naquela mais perto de Sebastian. Olharam-se nos olhos por um momento e Sebastian virou o rosto quando ele se aproximou na intenção de beija-lo nos lábios, mas isso não o desmotivou e ele beijou seu pescoço. Sebastian gemeu.

       - É verdade? – o Leão perguntou com os lábios colados ao pescoço do garoto.

       - O que? – disse olhando para o salão, querendo desesperadamente sair dali.

       - Que você é virgem.  – ele sussurrou - É verdade?

       Sebastian não respondeu, mas o Leão soube pelo soluço de Sebastian que era verdade.

       O leão deu uma risadinha e sem dizer mais nada, levantou-se e puxou Sebastian pelo braço conduzindo-o através da multidão até a escada que dava para o segundo andar. Subindo a escada ele conduzia Sebastian pela mão, passando por várias pessoas ao redor. Aquilo parecia um pesadelo. As pessoas mascaradas rindo e bebendo, a musica estranha, todo aquele ambiente. Ele estava meio entorpecido, mas ele percebia as coisas que aconteciam. Parecia uma festa no inferno, e os mascarados eram demônios lascivos. No segundo andar, o andar dos quartos, via as pessoas se atracando no corredor mesmo. Alguns quartos tinham as portas abertas e eram palco das mais variadas e estranhas orgias: mulheres, homens e as crianças de Don Giovanni. Não se sabia onde começava um e terminava outro. Sebastian estava horrorizado.

       Perto da porta de um quarto, o Leão praticamente o jogou contra a parede e com um sorriso sádico, aproximou-se dele e começou a beija-lo de forma agressiva, nos lábios, no pescoço, e suas mãos exploravam o seu corpo de criança. Sebastian tentava impedir que ele o tocasse se debatendo, mas ele era mais forte, e o dominava, prendendo seus braços contra a parede.

       - Não. . . – Sebastian implorava. – Para. . .

       - Assim que eu te vi, eu sabia que tinha que ser meu. – ele sussurrou ao ouvido de Sebastian.

       - Por favor. . . – chorava.

       - Sabe, quanto mais você luta, mais me ascende.

       - Para. . .

       - Ah, não dê uma de santinho agora, – ele tocou na intimidade do garoto que reprimiu um grito. – você não está exatamente indiferente. – dizendo isso, ele o pressionava com força.

       Depois de um tempo, Sebastian parou de lutar. Tudo o que queria era desaparecer. Chorava copiosamente enquanto o Leão fazia o que queria com ele. Ficaram ali no corredor por uns quinze minutos até que o Leão parou e afastou-se um pouquinho. Do bolso tirou uma chave pequena e abriu a porta do quarto ao lado. Ele arrastou Sebastian até lá dentro e do jeito que estava, Sebastian caiu no chão do quarto e lá ficou. Estava tonto, dolorido e sem forças, tanto que não teve forças para afastar o Leão quando ele avançou sobre Sebastian ali no chão frio. Ele arrancou a camisa de Sebastian quase a rasgando.

       - Não. . .  – ele implorou.

       - Vai começar de novo?

       - Por favor. . .

       Ele o virou de bruços e com violência abaixou a calça do garoto até os joelhos. Sebastian tentava em vão se soltar, mas o Leão estava em cima dele, prendendo-o ao chão. Ele era maior e mais forte, e sem dificuldade ele juntou as mãos de Sebastian nas costas imobilizando-o, de forma que conseguia prender as mãos de Sebastian com uma única mão enquanto a outra ficava livre. Com essa mão que estava livre, o Leão brincava com a intimidade de Sebastian e aonde mais ele queria, da forma que ele queria.

       - Eu te odeio! Eu te odeio! – o garoto bradou por entre lagrimas.

       O Leão riu e aproximou os lábios do ouvido de Sebastian.

       - É claro que sim. – sussurrou. – Sabe, eu gosto de garotos como você, gosto de ser o primeiro. Gosto da ideia de que sempre vão se lembrar de mim.

       - Não! Não! – disse desesperado, mas nem todo o desespero do mundo que o garoto demonstrasse demoveria o Leão do que ele estava fazendo.

       - Pare de ser tão dramático, você vai gostar.

       Sebastian sentiu quando ele se posicionou em cima dele e realmente, viu que tudo o que estava acontecendo era real. A dor que Sebastian sentiu no segundo seguinte quando era invadido foi tamanha que ele parou de respirar por um momento. A dor era incrível e não tinha fim. Tudo o que ele conseguia fazer era chorar e o grito que ele sufocou quando o Leão começou a se mexer quase explodiu seu coração.

       Como já foi dito, ele era uma criança e era virgem, e da forma mais errada e dolorosa deixou de ser. Naquela noite ele conheceu o monstro que há nos homens e toda a dor que ele pode causar. Era inútil se debater, o Leão era mais forte e o dominava. Depois de um tempo parou de resistir e de xingar, só chorava e soluçava. Tudo o que queria era morrer.

       Depois que o Leão terminou com ele, ele ainda continuou jogado no chão, sentindo-se a cosa mais suja do mundo. Não tinha forças para se levantar e ali ficou, chorando e tremendo. Com um sorriso diabólico, o Leão foi até a porta e a abriu.

       - Vou pegar uma bebida para gente. Não saia daí.

       Dizendo isso, ele saiu do quarto e Sebastian ficou sozinho. Ele não viu o Leão voltar, desmaiou antes disso, mas muita coisa mais aconteceu naquela noite que ele não viu por estar misericordiosamente inconsciente. Mais tarde, Sebastian descobriria que esse tipo de festa acontecia regularmente, só com os garotos mais bonitos de Dom Giovanni, ou seja, nunca escapava de ser escalado para ser leiloado. Nunca soube o nome do Leão, também não faria diferença. Nunca mais o viu nas festas, isso também não significava que se sentia aliviado. Depois que a porta daquele quarto se fechou, uma parte dele morreu naquele chão.

 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

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"O Iluminado" de Stephen King

Olá Leitores, hoje vou falar sobre uma de minhas obras preferidas, "O Iluminado" de Stephen King, o mestre.
Sinopse    

    Jack Torrance é um ex-professor de literatura e aspirante á escritor que está passando por muitas dificuldades com a perda do emprego e os problemas na familia por causa de seu problema com a alcoolismo.
     Querendo começar do zero, Jack aceita trabalhar como zetlador de um Hotel luxuoso , o Overlook, um hotel de varaneio nas montanhas do Maine. Ele trabalharia durante o inverno, quando o hotel é fechado por causa da neve e as estradas se fecham durante meses. Isso lhe daria uma oportunidade para pensar na vida e poderia se dedicar á escrever sua tão sonhada peça. Mas como ficaria sozinho por muito tempo, ele leva sua esposa Wendy e seu filho Danny para viverem no hotel durante o inverno, tentando ignorar os rumores e boatos de que o Overlook fosse assombrado e de que o zelador anterior havia surtado e matado a familia, antes de cometer suicídio.


     Danny, no entanto, não ignora esse fatos, pois desde pequeno o garoto era atormentado por visões do futuro e de espiritos que por algum motivo, queriam lhe fazer mal. Uma vez dentro do Overlook, Danny percebe que o hotel não é simplesmente assombrado, é praticamente vivo, e fervilhando de maldade. Até seu pai Jack é afetado pelos espiritos de andam pelos corredores, como se ainda estivessem vivos. Mas como fugir dessa armadilha?

Impressões

     "O Iluminado" é um classico do suspense, que se tornou referncia no mundo da literatura e que já ganhou algumas adaptações para a tv e cinema, a mais conhecia com o ator Jack Nicholson como Jack Torrance.
      O mestre Stephen King  consegue assustar o leitor com suas palavras. Historia escrita na decada de setenta, foi uma das que lançaram esse incrivel escritor e lhe conferiram o titulo de "Mestre do Terror", sem falsa modestia. Mesmo que ele viaje um pouco na batatinha, suas cenas são assustadoras, principalmente as visões de Danny dos fantasmas do hotel.

Por quê você deve ler?

     Mesmo que essa obra seja um tanto pesada, não consegue parar de ler. Stephen te prende desde a primeira linha e faz simples arbustos em forma de aminais ficarem muito sinistros. (observação, no filme de kubrick, não tinham os arbustos, mas sim, um labirinto)  Recomendadissimo!!!!!!!!

domingo, 21 de outubro de 2012

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"Sebastian", capitulo VI , por Natalia de Oliveira

Parte I
Capitulo VI
"Eva"
 

       O porto de Nápoles era grande. Navios ancoravam e zarpavam todos os dias deixando-o cheio de contêineres e mercadorias de várias partes do mundo, ou seja, trabalho era o que não faltava á Sebastian. Juntamente com Pietro e Luigi, trabalhava duro, mas com a consciência limpa, com um trabalho duro, mas honesto.

       Era um dia do sol ameno e Sebastian descarregava um contêiner colocando seu conteúdo num caminhão estacionado ao lado, tudo isso sozinho. A mercadoria não era tão pesada, além do mais, os irmãos Tomazi (era assim que Pietro e Luigi eram chamados, pois andavam sempre juntos) estavam do outro lado do porto descarregando outro contêiner.

       Sebastian já havia descarregado a última caixa quando olhara para o lado e vira o mar, inconscientemente aproximando-se do muro de proteção. Colocara a caixa no chão ao seu lado e olhava para as aguas mais adiante na praia, onde ondas brancas vinham quebrando e via também uma ou outra gaivota voando. Seria um cenário lindo em outras circunstâncias.

       Fechou os olhos ouvindo o barulho das ondas lá embaixo batendo contra as rochas, sentindo a leve brisa em seu rosto, e isso tudo o remeteu há tempos atrás quando nadava no rio de sua cidade, na época em que sua maior preocupação era chegar a casa a tempo do jantar e talvez levar uma bronca do seu pai. “Ah, se ao menos eu pudesse dar um mergulho. . .” , pensou. Pareciam séculos desde a última vez, naquele dia em que. . .

       Havia dias em que a tristeza batia mais forte, outros dias nem tanto, mas ela estava sempre ali como uma tatuagem, para atormentá-lo, para lembrá-lo sempre de seu juramento. Uma ferida aberta que nunca cicatrizaria.

       Abriu os olhos e contemplou o por do sol mais bonito que já presenciara.  O céu em tons de laranja mesclado com azul e roxo e as gaivotas voando, dando adeus ao dia que terminava. Ele jamais se esqueceria desse momento, por outro motivo também.

       Saindo de seu devaneio Sebastian voltara a pegar a caixa de papelão que deixara no chão e carregara para dentro do caminhão, colocando-a junto das outras. Seu expediente havia acabado. Iria procurar Luigi e Pietro pelo porto para receberem o pagamento pelo dia de trabalho, depois voltariam ao beco, para pagar sua parte á Francesco, mas nesse meio tempo algo aconteceu.

       Ao sair do caminhão Sebastian dá uma última olhada na praia. Estava quase vazia, mas algo lhe chamou a atenção. Uma moça. Era morena, os cabelos muito compridos e lisos. Usava uma calça jeans e uma bata branca. Não podia ver seu rosto pois ela estava de frente para o mar, parada em pé, com água nos tornozelos. Não tinha certeza, mas ela parecia chorar pois não parava de esfregar as mãos no rosto e em certos momentos ela se curvava para frente em espasmos. Então Sebastian sentiu algo estranho, uma espécie de sensação ruim, como sentia sempre que algo errado estava para acontecer. Mas por quê? Ela poderia ser apenas uma garota triste, como muitas que vinham contar sua dor para o mar, e depois do desabafo, iam embora limpas de suas tristezas. Porém lá no fundo sentia que não era só isso, havia algo mais. E realmente havia. Para sua surpresa, a garota começou a andar para dentro da agua do jeito que estava, com roupa e tudo e num movimento muito rápido, ela mergulhou.

       - Ei, moça! – Sebastian gritou desesperado do deque.

       Saiu correndo pelo porto como louco. Aquela moça queria se matar, tinha que fazer alguma coisa. Atravessou a praia e jogou-se no mar também numa atitude desesperada. Sorte dele que sabia nadar muito bem.

       Com braçadas rápidas, nadou boa parte da praia sem ver qualquer sinal da moça morena. Parou e ficou flutuando, procurando-a com os olhos no nível das ondas até que a viu, debatendo-se a uns dez metros dele. O mais rapidamente que pôde nadou até ela, abraçou-a e nadou de volta á margem, com mais dificuldade, pois ela estava inconsciente agora.

       Assim que chegou num ponto raso, no qual podia ficar de pé, pegou-a nos braços carregando ela até a areia, demonstrando a força que havia adquirido nesse tempo de trabalho no porto. Deitou-a na areia e a observou: Era jovem, no máximo devia ter uns vinte anos, tinha no rosto traços delicados, porém havia também certa dureza, como se sentisse uma grande tristeza.

       - Moça, moça! – Sebastian tentava reanimá-la com batidinhas leves em seu rosto. – Ah, Jesus, e agora?

       Devagar ela abriu os olhos, revelando um par de olhos de um tom que ao por do sol parecia dourados.

       - Tudo bem moça? – Sebastian perguntou em italiano ruim bem mais aliviado por ela ter finalmente acordado.

       Ela ficou em silêncio um tempo olhando para ele com um olhar espantado e então, sem mais nem menos, ela desatou a chorar, a chorar incontrolavelmente. Só então Sebastian percebeu que várias pessoas começaram á rodeá-los, observando aquela cena, e os dois ali encharcados lado á lado, deixando-o constrangido. A moça falou algo em italiano que ele não entendeu, deixando ele preocupado.

       - Moça, eu não entendo. . . – disse em sua própria língua, aflito.

       Ela parou de chorar acalmando-se lentamente e olhou bem no fundo dos olhos verdes dele.

       - Eu disse que não era justo que Deus mandasse um anjo para me impedir. – disse no idioma dele.

       - Ah, então eu estava certo, você queria se matar. O que você tem na cabeça?! – estava bravo.

       - Desespero. – respondeu com a voz baixa por entre lágrimas. – Devia ter me deixado lá.

       Ao ouvir isso Sebastian enterneceu-se e sentiu uma pontada no coração. Podia ver claramente em seus olhos que havia uma tristeza tão grande quanto o mar no qual ela queria perder-se á pouco. Sempre achara os suicidas pessoas fracas e covardes, mas olhando aquela moça, tudo o que via era alguém desesperada, sozinha e perdida como ele. Não podia ficar indiferente.

       - Qual é seu nome? – Sebastian perguntou mais brando.

       - Eva. – ela respondeu soluçando.

       - Bem, Eva, meu nome é Chan. . . – hesitou – Sebastian. – ele disse seu novo nome com o qual ainda se acostumava. - O que me diz de sairmos daqui? Já chega de mergulhos por hoje.

       Levantou-se e estendeu a mão para ajudar Eva a levantar. Um gesto simples, mas que para ela foi de um significado importantíssimo:

       Quando acordou e deparou-se com aquele garoto belo de olhos verdes tão penetrantes que acabara de salvar sua vida, Eva realmente pensou que se tratava de um anjo que fora mandado em seu socorro e agora vendo ele assim, com a mão estendida para ajudá-la a se levantar, sentiu que não se enganara. De um modo estranho sentia-se completamente enfeitiçada, como se ele emanasse um magnetismo que a atraia e tudo o que podia fazer era se deixar levar. Segurou sua mão e levantou-se, seguindo-o.

 

       Perto dali, saindo da praia, havia um galpão abandonado que durante muito tempo serviu de depósito para mercadorias roubadas dos carregamentos que chegavam ao porto, mas desde que a polícia invadiu e apreendeu boa parte das coisas os criminosos ficaram com receio de reutilizá-lo. Melhor para Sebastian, Luigi e Pietro que usavam o lugar como refugio. E foi até lá que Sebastian levou Eva pois a noite já chegava.

       A porta estava trancada, claro, e eles usavam uma janela para entrar. Não era muito alta, porém os garotos tiveram que improvisar, colocando uma caixa de madeira para ajudar como degrau do lado de fora e do lado de dentro. Eva foi primeiro, seguida de Sebastian.

       O lugar até que era grande, com pilhas e pilhas de caixas por todos os lados, mas havia um lugar no meio do galpão em que o espaço era mais aberto e eles ali ficavam, onde não havia goteira e onde as caixas os protegiam de olhares furtivos, caso um curioso fosse espiar.

       Assim que Sebastian fechou a janela pela qual entrou e desceu da caixa de madeira, foi surpreendido por um grito de espanto de Eva.

       - Tem alguém ali. – ela sussurrou.

       - É claro que tem! – Pietro disse vindo das sombras com uma vela na mão. – Quem é ela? – dirigiu-se curioso a Sebastian.

       - O nome dela é Eva. - disse ele calmo. – Esse é Pietro, meu amigo.

       - Sou tão seu amigo, que convenci o Guilhermo a pagar o seu dia de trabalho para mim, ou então você iria perder. Onde esteve? – mesmo com a fraca luz, podia ver um ar contrariado.

       - É uma longa historia. – disse disfarçando ao indicar sorrateiramente a garota ao lado.

       - Ah! Entendi. – Pietro sorria zombeteiro, lançando um olhar malicioso em direção ao amigo. – Vamos, Luigi está esperando e já aviso, está de mau humor, acho que está de TPM.

       Atravessaram um labirinto de coisas até chegarem ao espaço em que eles dormiam. Como cama, cada um havia feito uma pilha de tecido de algodão, uma mercadoria a muito esquecida naquele galpão, de forma que formavam um circulo com uma fogueira no centro que esquentava e iluminava o lugar. Luigi, que estava sentado em sua cama observava enquanto os três se aproximavam.

       - Onde esteve? – disse ríspido.

       - Já é a segunda pessoa que me pergunta isso em menos de cinco minutos, e antes que me pergunte quem é ela, o nome é Eva. – Sebastian disse na defensiva.

       - Na verdade, o que eu ia te perguntar era porque trouxe uma estranha pra cá sem nos consultar primeiro? – disse com visível aspereza. – Aqui não é ponto turístico.

       - Foi preciso. – Sebastian argumentou.

       - Foi uma atitude imprudente e sabe disso. – Luigi alfinetou.

       - Que seja, eu não ia deixá-la sozinha do modo como estava. – alterou-se.

       Então rapidamente contou tudo o que havia acontecido desde que parara para ver o por do sol.

       - Desculpe-me Eva, - disse Luigi sem jeito. – mas não podemos confiar em todo mundo nesses dias. Ainda mais quando nosso amigo aqui ainda não entendeu o conceito de esconderijo. – estendeu a mão para cumprimentá-la. – Não se preocupe, terá um lugar seguro para ficar essa noite, não temos muito, mas o que temos dividimos.

       - Muito obrigada. – apertou a mão de Luigi com um sorriso forçado.

       - Não liga para ele, é paranoico. – Pietro sussurrou no ouvido dela, dessa vez arrancando um sorriso sincero de Eva.

       Sentaram-se em volta do fogo. Eva fez questão de sentar-se ao lado de Sebastian, não sabia por que, mas em meio aquela confusão em que sua cabeça estava sentia-se bem ao lado dele, protegida.

       Os rapazes conversaram durante um bom tempo, no qual Eva ficara em silêncio absorta em pensamentos, da mesma forma em que Sebastian a observava e tudo o que podia imaginar era o motivo de tamanho desatino. Não conseguia entender porque alguém tiraria a própria vida.

       Depois de um tempo, quando perceberam que já estava ficando tarde, os garotos arrumaram para ela uma cama como a deles e se recolheram.

       - Boa noite para os que ficam, - disse Luigi. – estou cansado demais e temos que levantar cedo amanhã. – disse afastando-se e indo em direção a sua cama, seguido de Pietro, deixando os dois sozinhos.

       Um silêncio sepulcral pairou entre os dois que observavam a fogueira crepitando.

       - Você não está muito a fim de conversar, não é? – Sebastian disse quebrando o silêncio.

       - Eu não estou num dia muito bom. – ironizou.

       - Notei. – disse no mesmo tom. – Quer conversar sobre isso? – Sebastian disse de um jeito que a fez rir.

       - Tenho tantos problemas que nem sei por onde começar. – olhou bem nos olhos dele. – Deve estar pensando que eu sou louca ou algo assim, não é?

       - Na verdade, eu estava pensando no que teria acontecido de tão ruim para achar que dar um “mergulho” fosse a resposta. – disse direto fazendo Eva desviar o olhar.

       - É uma historia triste demais, e a muito tempo deixei de acreditar em finais felizes.  – disse ficando com uma expressão muito triste. Sebastian sabia que ela devia estar sofrendo muito.

       - Todos nós aqui temos historias tristes, - disse serio. – mas nos fazemos nosso final. Não desista por causa de um tombo apenas, mesmo que seja difícil sempre há um motivo para continuar vivendo. Mesmo que o motivo não seja dos mais nobres. – pensava em Robert Murphy e sua promessa de matá-lo um dia.

       - Fala por experiência própria? – perguntou intrigada. – Assim tão jovem?

       Sebastian riu forçadamente.

       - Eu disse que todos nós temos historias tristes.

       - Qual é a sua? – interessou-se.

       - Vamos fazer assim, como nenhum de nós esta a fim de dar a sua biografia, algum dia desses nos sentaremos e conversaremos longamente sobre isso. Tudo bem?

       - Tudo bem. – ele respondeu.

       Os dois estavam sentados lado a lado e num gesto de cansaço, Eva encostara a cabeça no ombro de Sebastian que enternecido colocara seu braço em volta dela. Olhando assim ela parecia tão indefesa, perdida, sozinha, alguém como ele, que precisava de um pouco de carinho. Queria poder confortá-la, queria poder fazer as coisas que a assustavam irem embora, mas como, se tinha ainda dificuldade de lutar contra os próprios demônios.

       - Tudo vai dar certo, querida. – disse Sebastian.

       Eva o abraçou mais forte nesse momento.

       - Eu nunca me senti tão protegida como estou me sentindo agora. Será que eu estava certa quando te chamei de anjo?

       - Não sou anjo.

       Abraçados, eles se olharam por um momento.

       - Então, não será pecado se eu fizer isso.

       Com delicadeza, Eva passou os dedos pelos cabelos negros de Sebastian, descendo até a nuca, então puxou ele para si beijando-o profundamente. Foi algo tão inesperado, que ele ficara sem reação por um momento, confuso, apenas deixando-se ser beijado por Eva. Ele era totalmente inexperiente, fora o beijo na beira do rio. Não sabia como reagir, nem onde tocar, nada. Ela se afastou um pouco e olhou nos olhos dele, sorrindo ao notar que ele estava totalmente perdido. De novo ela aproximou-se e beijou seus lábios, propositalmente entreabertos, incitando-o a fazer o mesmo e quando ele o fez, ela delicadamente introduziu sua língua na boca dele fazendo-o gemer baixinho, ao mesmo tempo em que explorava suas costas. Sebastian sentia um calor subir por sua espinha e uma sensação em seu interior que nunca havia sentido antes, e quando estava começando a corresponder o beijo, Eva de repente se afastou.

       - É melhor parar antes que eu estrague tudo. – disse sem jeito. Sebastian apenas assentiu com a cabeça em silêncio. – Boa noite.

       Eva disse antes de se afastar e ir em direção a sua cama recém-construída e deitou-se deixando Sebastian sozinho. Ficou um bom tempo pensando nisso. Entendia Eva, ela estava muito carente, só isso. E um beijo não tinha nada de mais, embora ela tivesse deixado ele de um jeito que nunca imaginara estar. Foi realmente melhor terem parado antes que. . .  bem, foi melhor assim. Tudo certo. Então porque ainda estava tremendo?

       Foi para a sua cama e tentou dormir para tirar isso da cabeça e quando acordou de manhã, Eva não estava mais lá. Pietro disse á ele que ela havia ido embora assim que o sol nasceu.

       - Eu não entendi muito bem o que ela disse, mas deixou um recado para você, ela disse que ia fazer seu “final feliz”. – disse com um olhar confuso.

       Sebastian sorriu, pois sabia que Eva ficaria bem onde quer que esteja, e que talvez algum dia se encontrariam de novo.